sábado, 23 de junho de 2012

Sociedade humana.

De um jeito ou de outro, a socialização não é uma invenção do ser humano, a forma como ela acontece perante à população humana e é instituída sim, são atos da nossa vontade, caracterizada pela força da persuasão. Mesmo que tenhamos nossas ideologias prontas, nossas condutas estabelecidas pelas correntes que formaram as nossas verdades, somos tão naturais em nossos sentidos quanto as demais populações da biosfera terrestre.
Como maquiamos a nossa personalidade, na busca de uma superioridade absoluta, acabamos por esquecer de funções vitais de uma sociedade. Aprendemos a dominar, a nos impor e impor as nossas realidades, realçando a sensação de poder e de felicidade. Assim esquecemos da amizade, do companheirismo, da naturalidade dos sentimentos, os quais instituíram padrões de comportamentos destrutivos, de concorrência e concordância com as limitações que nos impõem.  
Somos uma sociedade de produção, acreditamos e discutimos nos cacarejar dos debates, na nossa hierarquia social. Passamos a vida a ver quem botará os ovos maiores e mais suculentos, recebemos aquilo que acreditam ser suficiente ao nosso sustento, deixando as alas mais baixas do galinheiro para alas classificadas, mas ainda em galinheiros, quanto mais produzimos, mais podermos consumir e  maior será a nossa probabilidade produtiva. Assim a ração social nos é servida e nos remete a mais cacarejares e a mais botar de ovos, indiferentes ao rejeito que produzimos, aos pés da nossa produtividade, mas cujos os odores repercutem, de toda forma, em nós. Essa é uma lamentável comparação que ouvi, e da qual não posso deixar de concordar. Nossa sociedade é sim, aprisionadora e consumidora dos nossos esforços, assim aprendemos que temos de impor nosso cacarejar para obter alguma vantagem, vantagem que nos assegura conforto e que produz exclusão. Não há ração para toda a sociedade, classificamos indivíduos pela sua capacidade de produção, a produção que alimenta os nossos interesses.    
 Assim aguardamos a nossa introdução nos patamares mais altos da sociedade, espreitando que os pilares de sustentação econômica, em seus balances de demanda, derrubem indivíduos desqualificados, despreparados ou simplesmente fracos, que possamos estar presentes nestes pilares e alçar voos, imaginando um céu de oportunidades. Mas não compreendemos, ou não enxergamos aqueles que alçaram voos, o quanto nos limitam, assim como não enxergamos aqueles ficaram ao chão, tão limitados pelo nosso direito de ascensão. Há uma tendência natural de que os voos sejam interrompidos, que desequilíbrios nos pilares da sociedades nos façam descer, assim como corretes de ar nos façam subir. Há um rodízio de oportunidades existentes, há uma manutenção natural dos ciclos de poderes, os quais não aceitamos e forçamos não compreender. Espreitamos melhoras que nos favoreçam, abrimos as asas e demarcamos nosso espaço, forçamos a manutenção da exclusão.
 E um dia percebemos que nossos voos não nos tiraram do chão, ao contrário, estabelecemos nossos portos seguros na ciência de que fizemos tudo errado, no comodismo da espera. Lamentamos amigos que se foram, sonhos não concretizados e a falta da vida, vivida de correrias e de conquistas vagas. Muitas vezes temos a oportunidade de ter compartilhado bons momentos, podendo lamentar serenamente daquilo que nos sobra, naquilo que nos enriquece. Somos todos seres compostos de corpos, compostos de moléculas e transformados, de embrião a anciãos, somos todos dotados de alguma magia interior, da qual realça a vida e a divindade. Não aprendendo a reconhecer essa magia, limitamos a nossa percepção quanto as vidas que destruímos, quanto às apropriações de vidas que nossa conduta produz. Somos limitados sim, mas somos limitadores de nós mesmos quando nos permitimos ser limitados, quando limitamos para revogar a nossa limitação.  
 E assim acabamos limitando toda uma sociedade, todo um fluxo funcional de vida, todo um sistema mágico e complexo. A socialização humana não pode mais deixar que seus filhotes sejam abandonados perante as possibilidades econômicas. Instituir o conceito de um mínimo necessário à população significa instituir uma base digna, que priorize a família em sua justa constituição, que priorize a participação da sociedade na reestruturação da própria sociedade, que priorize a educação para um conjunto participativo, que agregue conquistas conjuntas, que priorize a valorização de todo um modelo que não passa de um ser único, dotado de parcelas vivas que o mantém e que provem a sua existência.
Prover o mínimo necessário significa, instituir políticas públicas de acompanhamento de crianças e jovens, filhos de pais "produtivos", garantir que não exista a aliciação destes para os descaminhos e que estes possam ver o mundo com os olhos que deixamos ser vendados. Significa abolir a "justa competição" na garantia dos Direitos essenciais, significa permitir que exista inclusão e ética na distribuição dos recursos necessários à justa sobrevivência de cada indivíduo, garantir que nossos filhos não necessitem optar por condutas que lhe permitam expressar a sua liberdade e a sua indignação de formas tão abusivas. Nossas crianças e adolescentes são meros resultados das nossas conquistas, são frutos do espelhamento de condutas abusivas, de apropriação e de exclusão, de nossa seleção de valores. Mais ainda, nossos filhos são influenciados pelo mundo que construímos, têm vidas próprias e são dotadas do mesmo senso de escolha a qual atribuímos nossas prioridades e os meios para como conquistá-las, mas nem sempre se espelham em nós, tendo suas afinidades atribuídas ao conjunto social em que se inserem. 
Uma das causas deste "post" foi um debate sobre a diminuição da idade penal, a qual pretende-se aferir ao jovem maior de 16 anos, o dever de pagar pelos crimes que comete. Justo seria, se houvesse um sistema educacional menos voltado ao exercício da indiferença, um funcionalismo público menos voltado à omissão e um regime político mais voltado para o social. Reduzir a idade penal acarreta na aliciação de crianças para as atividades marginais, acarreta na destruição da infância e na desvalorização do ECA.