terça-feira, 22 de maio de 2012

Um pouco do lixo.

O resíduo orgânico é responsável por mais de 50% do total de resíduos gerados nas cidades, sendo citado em alguns estudos com percentuais entre 52% à 65%. Maior problema do que saber que muito deste rejeito é tratado de forma errada, finalizado em aterros controlados e lixões, é saber que muito do lixo gerado não é contabilizado, sendo que tem destino indeterminado, em terrenos baldios, margens de corpos d'água, incorporados em resíduos de construção, lançados nas ruas e calçadas, abandonados em quintais e outros locais.
Quando dispostos de forma correta em aterros sanitários, a provabilidade de contaminação é baixa, mas não nula. Muitos dos resíduos gerados pela população são adicionados ao resíduo orgânico por não haver métodos de coleta que permita a sua segregação de forma correta.
Para quem já teve a oportunidade de conhecer uma área de aterro, mesmo quando dentro dos parâmetros estabelecidos, ha de perceber que a composição do lixo é rica, é tóxica, é patogênica, é reciclável, é viva. Mesmo havendo um sistema de gestão que integre tratamento de resíduos de saúde, reciclagem, e outros possíveis, garantir a segregação total dos resíduos em cada local de geração é impossível. Por esse motivo, o "lixo" se torna rico em utensílios, materiais recicláveis, alimentos desperdiçados, ferramentas, calçados, roupas  e muitos outros objetos que atraem os catadores para o trabalho de garimpagem. Quem de nós não ocupou as lixeiras para dispensar algo sem se perceber seu valor externo à nossa realidade?
Tal ocorrência é natural do cotidiano das pessoas, nosso lixo é rico para outro alguém, menos favorecido, as vezes, menos informado. Quando somente rico, os malefícios produzidos são enormes, mas soma-se a toxidade existente. Pilhas, medicamentos, tintas, vernizes, material de limpeza, óleos, graxas, muitos dos produtos consumidos dentro das residência têm seu destino nas lixeiras. Isso é perceptível de compreensão quando usamos inseticidas, raticidas, formicidas e outros "cidas", tendo o descarte de embalagens adicionados ao lixo. Medicamentos vencidos, seringas e agulhas, produtos de limpeza, são lançados para as redes de esgoto ou adicionados ao lixo. Um diabético pode consumir de uma a quatro seringas por dia, pulsões, algodão e fitas de teste. Quando há serviço de coleta deste tipo de resíduo, boa parte é descartada de forma correta, quando não, a finalização se dá no solo, passivas do contato com humanos e animais.
Toda essa diversidade existente lixo acaba por gerar um grande número de seres vivos interagindo direta e indiretamente, pessoas retiram seu sustento do lixo, roedores, insetos, animais peçonhentos, bactérias, vírus, protozoários, fungos e plantas convivem com esse lixo, transportam e são transportados pelo vento, pela água, pela condução mecânica. o lixo é vivo e se movimenta, seja através das águas pluviais, dos pós e dos fumos, do reaproveitamento em ciclos de reciclagem, de alimentação de animais como porcos, cavalos e outros meios mais.
Retirados os recicláveis, lixo eletrônico, resíduos de saúde, um dos maiores desafios é solucionar os problemas causados pela maior parcela do lixo, aquela que permite a existência de tantas vidas em sua dependência e de forma descontrolada. A mesma forma de vida assistida na realidade dos lixões pode ser construtiva, produzindo alimento para pessoas, animais, fungos e bactérias, permitindo a presença de polonizadores, de disseminadores de sementes, de crianças saudáveis, de trabalho digno, de sustentabilidade. É uma questão de foco e de visão, do turvo dos fumos se fazem as flores, quando  reconhecida a terra como um ser vivo em sua diversidade biológica, macro e micro. A natureza pede para ser explorada, o solo necessita da intervenção dos seres vivos na disposição de materiais diversos, na perfuração e revolvimento das suas camadas, na retirada da sua cobertura, mas de forma consciente e que favoreça a sua renovação. Assim fazem as aves, os animais, as raízes, os micro organismos do solo, o vento e as chuvas. Irracionalmente o fazem com perfeição, e a nossa racionalidade, para que servirá?